»  Crise x Sustentabilidade

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A crise econômico-financeira mundial é uma ameaça aos processos de sustentabilidade?

Reflexões de profissionais dedicados ao tema indicam que, pelo contrário, a crise é a oportunidade para governos, iniciativa privada e a sociedade repensarem e criarem novos caminhos, que passam necessariamente por ações sustentáveis. “As crises representam os limites dos modelos de reprodução do capitalismo e nada indica que não se reerguerá. Acredito que a grande oportunidade esteja na inclusão efetiva da agenda ambiental como um dos vetores de recuperação econômica. As ações sustentáveis, ainda como experiências pontuais, poderão se multiplicar e se intensificar”, afirma Enio Moro Junior, Doutor em Planejamento Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e professor do Centro Universitário Belas Artes.

O tema instigante foi apresentado aos docentes que colaboram com a ANAB-Brasil – Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica –, seguido pela questão da possibilidade do advento de uma nova ordem mundial pautada pelo consumo consciente. O professor Enio Moro Junior diz não observar evidências de uma nova ordem mundial a partir desta crise causada pelo colapso do modelo neoliberal. “A grande oportunidade deste momento de inflexão é estimular a sábia - e difícil - mudança de hábitos e costumes. A mudança vem da sinergia entre ações pontuais e seus rebatimentos coletivos. Vislumbro que as ações sustentáveis reúnem todas as condições de serem amplificadas neste momento”, diz.

Sustentabilidade, o caminho
 “Vejo fatores positivos dentro da crise, que nos obrigam a um olhar mais profundo e ‘up grade’ compulsório em relação à forma como vinham sendo conduzidos os modelos político, econômico e cultural dos países que protagonizam a crise”, comenta Marilena Lino de Almeida Lavorato, especialista em Gestão Ambiental e Gestão Estratégica de Negócios. Ela acredita que a sociedade poderá adotar novos padrões culturais - variável que influencia todo o contexto político e consumo. “Vivemos um momento de migração, em que se desenham novos cenários”, alerta, referindo-se a três importantes áreas de oportunidades: para tecnologias e processos mais limpos; para países e continentes melhor administrarem seus recursos naturais - escassez e valorização; para empresas e produtos sustentáveis - incentivos governamentais, mercadológicos, aumento da base de consumidores verdes.

“A sociedade mais bem informada é o fio da meada para acordos internacionais mais justos, adoção de tecnologias menos impactantes e governos mais atentos aos desequilíbrios e abusos socio-econômico-ambiental. E, assim, um planeta mais bem administrado. Isto ao meu ver é trilhar os caminhos da sustentabilidade”, pontua Lavorato.

“É inevitável pensar nas cidades como o que melhor simboliza a qualidade de vida de um povo. E o que fizemos com nossas cidades?”, indaga o engenheiro Cláudio Leozzi, colaborador da ANAB-Brasil. “A necessidade de nos ‘amontoarmos’ desordenadamente em centros urbanos resultou da atividade econômica imponderada, frenética e especulativa que afastou a natureza do convívio com o homem. Uma redução drástica da atividade econômica global vai nos obrigar a repensar parâmetros. Ainda não conhecemos a real dimensão dessa crise, mas podemos começar a utilizar imediatamente todo o conhecimento técnico e científico para criarmos condições de vida que valorizem a natureza, sem perdermos o que a tecnologia pode oferecer. Nos próximos anos a humanidade será obrigada a otimizar o uso dos recursos naturais e, assim, minimizar os efeitos da escassez que nos ronda.


Encontrar a objetividade dentro do processo de sustentabilidade e adotá-lo é a solução para essa crise”, afirma Leozzi, ponderando que “uma nova ordem mundial em relação ao consumo, refletirá a qualidade das ações que iniciarmos hoje”.

Mudança em curso
 A arquiteta e mestre pela FAU/USP, Daniela Corcuera, diretora de cursos da ANAB-Brasil, entende que “a crise é o reflexo da implosão de um sistema econômico e social insustentável, que começa a ser redesenhado, passando de um olhar antropocêntrico, para um olhar sistêmico e interdependente”. Na sua análise, esse é o momento de repensar e recriar novos padrões sociais, em que as relações de trabalho tenham por base a colaboração e que se reduzam os translados urbanos, disseminando a atuação em home-offices. “Uma sociedade sem aterros sanitários, em que os produtores irão receber de volta o descarte dos seus produtos para reuso ou reciclagem, reduzindo a demanda por matérias-primas virgens. Em que as edificações sejam mais autônomas em água e energia, mais saudáveis para os seus ocupantes e menos impactantes para o meio ambiente. Em que os edifícios ultrapassam a linha do impacto zero e causam impactos positivos, melhorando as relações humanas, melhorando a qualidade do ar e da água das cidades, melhorando a paisagem urbana e criando cidades mais acolhedoras”, conclui Corcuera.

Na mesma linha de pensamento, a psicóloga e especialista em educação ambiental, Cristina Gailey, cita o filósofo norte-americano Thoureau, para abordar o consumo consciente: "Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir". Ela considera que a crise tem e terá consequências profundas, muitas delas ainda pouco claras. “Esta é uma crise de valores, que nos remete à necessidade de rever padrões, desenvolver nossa criatividade, nossa capacidade de mudar, em busca de soluções práticas que visem a qualidade de vida . O ser humano muda quando percebe o benefício desta mudança no seu universo individual. A partir daí, consegue agregar valor e ampliá-lo para um padrão de comportamento coletivo. O esforço para esta mudança deve ser conjunto: iniciativa privada, governo e sociedade. Só um trabalho consciente e coordenado poderá trazer resultados visíveis, capazes de ter algum impacto positivo no atual cenário mundial”, acredita Gailey.

A engenheira Clarice Degani, doutoranda da Escola Politécnica da USP em Gestão e Avaliação de Desempenho Ambiental de Empreendimentos Imobiliários, considera que a sustentabilidade como reinvenção de processos trará as soluções para o desemprego gerado pela crise econômica. “Infelizmente, essa crise não gestará a prática do consumo consciente, porque as pessoas ainda têm seus valores pautados na imagem, na exteriorização. Assim, o consumo excessivo ainda prevalecerá por algum tempo, com crise ou sem crise”, diz. Em posição oposta, o engenheiro Thales Cavalcanti, diretor-executivo da Aureside, argumenta que setores como a indústria automobilística, um dos mais prejudicados pela crise, “terão que se adaptar, produzindo veículos e produtos com apelo mais sustentável e, não, de conforto e status”.

A arquiteta Márcia Mikai, coordenadora de Projetos da ANAB-Brasil, considera que a crise financeira reflete, mais uma vez, a incapacidade do sistema econômico de atender as necessidades da humanidade. “O dinheiro é virtual e especulativo, não responde em prol de um intercâmbio baseado em valores humanos, culturais e sociais. Acredito que haverá muitos desajustes, parte de uma nova estruturação que deverá surgir em favor da sobrevivência da raça humana”, observa, complementando: “Uma nova ordem mundial é urgente no enfrentamento do complexo cenário que aí está, como o aquecimento global, catástrofes geradas por fenômenos decorrentes, escassez de recursos e alimentos, e o aumento populacional”.

Na mesma linha de raciocínio, a bióloga e doutora em saúde pública pela USP, Luciana Barreira, diz que uma nova ordem mundial não será resultado, apenas, da crise que se estende a todo o globo. “Mas vem ao encontro de uma necessidade premente de mudarmos nossas ações e atitudes perante o planeta e às futuras gerações, o que já vem sendo sentido há algum tempo”, diz, referindo-se ao debate dos últimos anos sobre o aquecimento global e as ameaças aos recursos naturais. “A mídia exerce um papel fundamental nesse processo, mas é preciso que a educação seja mais efetiva, mudando hábitos e comportamentos individuais e coletivos, juntamente com políticas públicas voltadas à sustentabilidade. Só assim teremos uma sociedade mais justa, economicamente viável e ecologicamente equilibrada”, conclui.

Fonte: Anab - Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica

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