
Por Arquiteta Daniela Corcuera
A construção sustentável começa a ser praticada no Brasil, ainda com alguns experimentos tímidos, mas isto já é um bom sinal de que arquitetos, engenheiros e construtores estão atentos às necessidades da sociedade e do planeta
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O planeta Terra está doente porque a espécie Homo Sapiens está esgotando os recursos naturais e despejando materiais estranhos na natureza em uma quantidade e a uma velocidade maior do que ela pode suportar e processar sem sair do seu equilíbrio. Por exemplo, a natureza por meio do seu ciclo de evaporação purifica a água que utilizamos no banho, bebida e agricultura sem nenhum custo. À medida que despejamos cada vez mais poluentes nos corpos d’água, sem dar tempo a natureza de processar esses poluentes, teremos água imprópria para o consumo que demandará cada vez mais tratamentos complexos e eficientes.
Qual o custo desses tratamentos quando a natureza nos brinda sem custo?
A geração green building está cada vez mais presente no nosso dia-a-dia. Há condomínios sendo construídos seguindo este conceito em vários locais do Brasil. Essa produção de green buildings traz uma série de benefícios para a sociedade e seus usuários. Trata-se de edifícios que demandam menos recursos naturais para sua construção, menos água e energia na sua utilização, colaborando para a preservação do meio-ambiente, redução da poluição e geração de gases de efeito estufa, favorecendo a manutenção da nossa espécie. Os usuários de edifícios sustentáveis têm a seu favor construções mais agradáveis em termos de conforto térmico, luminoso, acústico e ergonômico, o que favorece a saúde, o bem-estar e reflete em maior produtividade.
A construção sustentável começa a ser praticada no Brasil, ainda com alguns experimentos tímidos, mas isto já é um bom sinal de que arquitetos, engenheiros e construtores estão atentos às necessidades da sociedade e do planeta. Muitos ainda encaram o assunto como puro modismo, ficando a margem da sustentabilidade que, muito além de um modismo, é uma necessidade e uma tendência a perdurar pelos próximos séculos.
As ferramentas, as informações e o know-how existem, mas é necessário fazê-los chegar ao público consumidor, construtores e arquitetos. Algumas construtoras vêm nisto apenas um diferencial de marketing, uma vez que consumidores cada vez mais preocupados com o meio-ambiente preferem que suas construções estejam alinhadas com estas questões.
Outras mais conscientes, e com visão de longo prazo, entendem que a sustentabilidade é uma ferramenta para qualquer empresa no planeta que queira continuar existindo. Não haverá mais lugar para empresas poluentes, que degradam e exploram o meio-ambiente, que não aperfeiçoam os seus fluxos de produção e que não oferecem condições de trabalho justas.
A utilização de estratégias sustentáveis em edificações resulta nos seguintes benefícios:
• Preservação do meio-ambiente
• Otimização dos custos operacionais
• Maior autonomia na utilização do edifício
• Qualidade de vida dos ocupantes
• Aumento da produtividade dos usuários
• Diferencial de negócio, podendo obter certificações ambientais para a valorização da marca da empresa
• Valorização imobiliária
Dados dos Estados Unidos mostram que as edificações são responsáveis por 12% do consumo de água, 39% das emissões de CO2, por 65% da geração de resíduos e 71% do consumo de eletricidade (fonte USGBC). Dados brasileiros, ainda que não tão precisos, revelam índices semelhantes: 40% dos recursos naturais extraídos são destinados a indústria da construção civil, 50% dos resíduos sólidos urbanos são provenientes de construções e demolições, 50% do consumo de energia elétrica é destinada para operação das edificações (fonte FGV – União Nacional da Construção). Dados mundiais apontam que os edifícios são responsáveis por 17% do consumo de água potável, 25% do consumo de madeira, 33% das emissões de CO2 e 40% do uso de recursos naturais (materiais) e 40% do consumo de energia.
Mediante estes dados, é grande o impacto negativo causado pelas edificações, de modo que quanto mais eficientes e responsáveis elas forem, maior será o ganho para a sociedade e para a nossa espécie. Edifícios sustentáveis, segundo o USGBC (United States Green Building Council), reduzem de 8 a 9% os custos de operação, aumentam em 7,5% o valor dos imóveis e aumentam a ocupação desses imóveis em 3,5%.
Muito provavelmente, construções sustentáveis não irão reverter de imediato os prejuízos causados pelo homem ao meio-ambiente, mas contribuirão para não piorar o quadro. Construções sustentáveis dão aos seus usuários mais autonomia, pois não dependem tanto dos sistemas públicos de abastecimento de água e energia, não sobrecarregam estes sistemas e podem funcionar de forma autônoma, mesmo diante de uma pane na rede pública.
A arquitetura sustentável é aquela que se preocupa em minimizar os impactos à natureza e ao homem, por meio do edifício em todo o seu ciclo de vida. Desde a sua concepção, construção, utilização, manutenção até o seu desmonte ou requalificação (retrofit), as necessidades presentes devem ser cumpridas, porém, sem comprometer a possibilidade de futuras gerações satisfazerem as necessidades de seu tempo.
Mas nem sempre o fato de uma construção usar materiais locais e naturais a classifica como sustentável. Uma construção natural pode ser chamada de ecológica, mas para ser sustentável é preciso avaliar o nível de conforto ambiental (térmico, acústico, luminoso e ergonômico) que ela oferece, a forma e demanda de energia e água que o seu uso acarreta, o impacto que ela provoca no entorno e o impacto que a sua construção e extração de seus materiais provoca. A abordagem precisa ser sistêmica, compreendendo a edificação como um organismo que interage com o ser humano e com o meio em que está inserida.
Falando especificamente de condomínios, muitos já adotaram algumas práticas conscientes como, por exemplo, o replantio de árvores nativas, coleta seletiva de lixo e de óleo de soja etc. Ações como estas, muito louváveis e benéficas, devem ser apoiadas e divulgadas cada vez mais, mas não são suficientes para classificar um empreendimento como sustentável. Sistemas de certificação de edifícios como o LEED ou o ACQUA, já implementados no Brasil, ainda que apresentem deficiências e problemas na sua totalidade, funcionam como um termômetro para indicar se a edificação atende a requisitos mínimos de sustentabilidade, em aspectos como: implantação, consumo de água, consumo de energia, geração de poluentes e resíduos, especificação de materiais, qualidade do ar interno e conforto ambiental dos ocupantes.
Existem diferentes classificações e metodologias de avaliação e até mesmo de certificação de edifícios. Em linhas gerais, podemos listar sete áreas principais, que uma edificação deve considerar para ser chamada de sustentável:
• Relação harmônica do edifício com seu entorno
• Escolha integrada dos processos e os materiais construtivos
• Sistemas de energia mais eficientes e menos poluentes
• Sistemas de coleta e tratamento de água e esgoto
• Sistemas para redução da formação de resíduos
• Desenho funcional do edifício e acessibilidade física
• Qualidade do ar interno e conforto ambiental
Construções sustentáveis simples não necessariamente representam custos adicionais para o construtor, ainda mais em um país como o nosso de condições climáticas tão amenas. Algumas soluções de projetos podem otimizar os espaços e se beneficiar de formas passivas de energia, como iluminação e ventilação natural, utilizando estratégias bioclimáticas. Alguns materiais, sistemas e equipamentos ainda têm custos maiores por serem inovações. Mas, à medida que a demanda por produtos sustentáveis aumentar, a produção em escala possibilitará a redução de custos desses produtos.
Começamos a ver isso acontecer com as madeiras certificadas, por exemplo. Acredito que a mudança de paradigma acontece ao se contratar um time de profissionais comprometidos com a sustentabilidade. Deve-se investir mais em planejamento e projeto (que representa apenas um pequeno percentual da obra) de modo a assegurar que sejam adotadas boas soluções para aquela edificação. Enquanto nos EUA e Europa os projetos demandam um a dois anos e as obras alguns poucos meses, o inverso ocorre no Brasil. Isto reflete em construções de baixa qualidade: arquitetônica, de execução e sustentável, afetando diretamente os custos de operação e manutenção, bem como o bem-estar e a produtividade dos usuários.
A sustentabilidade passa antes de tudo por uma mudança de postura e comportamento individual, pelo amor e respeito às gerações passadas e futuras. Fazer empreendimentos sustentáveis, mais do que cartilhas e certificações é ter bom senso, equilíbrio e respeito, compreendendo que as nossas ações afetam todos os seres humanos e voltam ao ponto de partida.
A partir desta mudança interna de conceito e de visão fazer arquitetura sustentável passa a depender de encontrar parceiros com o mesmo objetivo.
Fonte:
ANAB-Brasil. - Associação Nacional Arquitetura Bioecológica.
- Potencial de luminosidade do céu paulista é pouco explorado
- Reciclagem na Construção Civil
- O que é a casa ecológica?
- O mercado imobiliário necessita de edifícios inteligentes, mas também ecoeficientes e confortáveis
- Marketing Verde, a oportunidade para atender demandas da atual e futuras gerações
- Entrevista com Cristina Gailey
- Educação Ambiental Corporativa e Sustentabilidade
- Economia e Meio Ambiente – Interesses Colidentes?
- Desenvolvimento Sustentável x Qualidade de Vida
- Bioarquitetura: Um olhar em busca da essência
- Arquitetura Sustentável: Qualidade do Ar Interno e Saúde dos Ocupantes
- Arquitetura Sustentável: Reciclagem de Resíduos da Construção Civil
- Arquitetura Sustentável: Prevenção da Poluição no Canteiro de Obras
- Arquitetura Eco-Sustentável - Um Novo Paradigma
- À uma Arquitetura Ecológica
- A importância da gestão de pessoas para desenvolver uma cultura sustentável

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