
por Cris Campana
Vinda do Rio de Janeiro, dando continuidade as comemorações dos 50 anos de vida artística do paulista Tide Hellmeister, um dos mais importantes artistas gráficos do país, está em São Paulo a mostra itinerante BRAVA GENTE.
Desde o dia 30 de janeiro na Caixa Cultural da Sé, 60 obras, com curadoria de Claudia Lopes. A exposição conta a história dos personagens criados por Tide, a partir da observação do cotidiano dos passageiros do metro, do ônibus, de caminhantes das ruas. Estes personagens nasceram quando morava na praça da àrvore,SP, no percurso que fazia para ir trabalhar na região central da cidade.
Depois no estúdio, imaginava a vida de cada uma destas pessoas e recortava, colava, desenhava rostos tristes, bondosos, abatidos ou conformados. As obras retratam pessoas que podem ser Marias, Luizas, Julios, e quem mais quisermos nomear. Todos com data de nascimento e morte, as duas únicas certezas que o ser humano possui.
Um pouco de Tide
“Predestinado, desde sempre, à colagem”. assim o crítico Frederico Morais definiu o mestre Tide Hellmeister. Quando criança, Tide fez seus primeiros desenhos puxando e repuxando a fina pele das mãos da idosa madrinha. Já a produção de colagens começou quando ele ainda era um moleque. O ansioso Tide, que não tinha a menor paciência para esperar a tinta a óleo secar, até tentou fazer um curso no Instituto Nobel, mas desistiu por não suportar a obrigação de desenhar o mesmo busto de mulher todos os dias.
Sem as muletas da teoria, Tide continuou a colar, mas sempre com medo de mostrar seus trabalhos ao público. Então, rasgava e jogava fora tudo que criava. Um dos dias mais felizes de sua vida foi quando o consagrado e revolucionário artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee viu um de seus trabalhos e, pessoalmente, o incentivou a continuar colando.
Tide realizou diversos trabalhos, sempre ligados à produção visual ou gráfica. Aos 17 anos já trabalhava nos cenários de Cyro del Nero, na TV Excelsior. Atuou como capista e programador visual na editora de Massao Ohno. Foi diagramador e editor de arte, participou da reforma gráfica de vários jornais brasileiros (entre eles, o Jornal da Tarde), cuidou da “arquitetura gráfica” de livros e catálogos de arte editados pelo Banco Novo Mundo, fez capas de livros, ilustrações e um sem-número de trabalhos gráficos. Além disso foi o ilustrador da coluna do Paulo Francis na Folha de São Paulo durante 10 anos. Em todas as criações, a singularidade, a competência e a ousadia eram suas marcas inconfundíveis e lhe renderam muitos prêmios no Brasil e no exterior.
Os traços de genialidade encontravam vazão na personalidade libertária do homem que jamais deixou de ser criança e, por isso mesmo, viveu buscando o novo, viveu interessado nas coisas do mundo, segundo sua leitura sempre particular e inovadora. “Eu sou um grude”, disse ele numa tentativa sincera e divertida de autodefinição. Estava certo: grude tem cola, cola remete à colagem e isso é a essência de Tide Hellmeister. O homem capaz de se reinventar e reinventar a arte – o tempo todo – considerado, por unanimidade, o grande estimulador e defensor da colagem como arte maior no Brasil. Mas ele nunca ligou muito para títulos, seguiu colando.
ARTISTA "MÃOS DE TESOURA" .
Ele dizia – “A colagem é tudo – a vida é colagem…”
Nesta Exposição que vai até dia 28 de março, convidados especiais oferecem, aos sábados, oficinas gratuitas sobre temas relacionados ao trabalho de Tide.
No dia 06 de fevereiro Enock Sacramento, jornalista, crítico de arte e amigo do mestre, foi o palestrante e desenvolveu um feliz paralelo entre Tide Hellmeister e Edward, mãos de tesoura - personagem interpretado por Johnny Depp, com o diretor Tim Burton.
“Uma relação simbólica entre Edward e Tide Hellmeister: Os dois usavam a tesoura para criar, eram extremamente habilidosos, compulsivos, sensíveis e competentes, mestres no que faziam.”Ambos, mãos de tesoura.
Tive o prazer de estar com ele em sua exposição na galeria 8Rosas, uma conversa rica, permeada por imagens que falavam junto ao mestre. TIde Hellmeister morreu no final de 2008, no último dia do ano. Perdemos um grande artista.

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